Mensalão mineiro se arrasta, e crime dos réus pode prescrever
Processo investiga desvio de verba pública para a reeleição do tucano Eduardo Azeredo, em 1998, com atrasos no julgamento, crimes devem caducar
Processo investiga desvio de verba pública para a reeleição do tucano Eduardo Azeredo, em 1998, com atrasos no julgamento, crimes devem caducar
Enquanto o julgamento do mensalão
petista no Supremo Tribunal Federal (STF) tende a se estender até 2014, o
mensalão tucano em Minas — processo que investiga desvio de recursos
públicos para a campanha à reeleição de Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao
governo de Minas, em 1998 — sequer tem previsão de julgamento. O atraso
deve beneficiar Cláudio Mourão, ex-tesoureiro da campanha e classificado
pelo Ministério Público como figura central na operação do valerioduto
no estado.
Os crimes de peculato e formação de
quadrilha, atribuídos pelo MP a Mourão, prescrevem em abril de 2014,
quando o réu completará 70 anos. Porém, a juíza Neide da Silva Martins,
da 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça, cogita julgamento apenas em
2015. Outro réu, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, já teve os
crimes prescritos pelo mesmo motivo.
Os dois fazem parte da lista de 10 réus
do processo que respondem na Justiça estadual de primeira instância,
onde tramita o processo contra os réus sem direito a foro privilegiado.
No STF, Azeredo e o senador Clésio Andrade (PMDB-MG) são réus por
peculato e formação de quadrilha. Segundo o MP, Cláudio Mourão foi
figura fundamental no desvio de R$ 3,5 milhões de estatais. Ele nega as
acusações.
Réus e testemunhas em excesso
Em outros processos relacionados ao
mensalão mineiro, a Justiça Federal condenou neste ano o ex-diretor do
Banco Rural Nélio Brant, por gestão fraudulenta e gestão temerária.
Marcos Valério e seus sócios nas agências SMP&B já tinham sido
condenados, no ano passado, por simular o aumento de capital da empresa
para justificar depósitos em suas contas. Para a Polícia Federal, a
operação foi forjada para esconder o uso da agência de publicidade para
repasse de recursos públicos.
A reportagem, Neide da Silva Martins,
juíza da 9ª Vara Criminal, protestou contra o excesso de testemunhas
arroladas e culpou o próprio Código de Processo Penal (CPP) pelo atraso:
“Os fatos noticiados na denúncia são
datados de 1998, mas só chegaram a Justiça Estadual em 2010. O processo
segue os trâmites do CPP, que é arcaico”.
O Ministério Público (MP) arrolou 26
testemunhas na ação, em vez de oito a que normalmente tem direito.
Assim, os advogados de defesa fizeram o mesmo, adicionando à conta nada
menos que 86 novos nomes de testemunhas. Com uma peculiaridade: os nomes
foram indicados sem informações básicas à Justiça, como endereço
atualizado da testemunha ou número de documento válido.
“A justificativa do MP (para arrolar
tantas testemunhas) foi a complexidade dos fatos narrados na mesma peça
acusatória, a pluralidade de réus e de condutas imputadas. Se o MP pode
exceder em seu pedido, a defesa também teve esse direito” afirma a
juíza.
Para o processo prosseguir, ainda faltam
ser ouvidas 26 testemunhas. Antes de chegar em definitivo à Justiça
mineira, percalços não faltaram. Primeiro, a defesa de Marcos Valério
tentou remeter a ação integralmente ao STF, em função da diplomação como
senador do réu Clésio Andrade (PMDB). Os desembargadores do TJMG
acolheram a tese e chegaram a transferir a ação para o Supremo. Mas, em
seguida, o processo foi remetido de volta à BH.
Advogado culpa justiça por demora
Atualmente, tramitam no STF duas ações
penais referentes aos dois réus com foro privilegiado, Eduardo Azeredo e
Clésio Andrade, mas o relator dos casos, o ministro Luís Roberto
Barroso, também não tem qualquer previsão de finalização do trabalho,
conforme informou a reportagem o gabinete do magistrado. Azeredo e
Andrade respondem por peculato e lavagem de dinheiro.
Azeredo precisa ser ouvido em juízo.
Defesa e acusação poderão pedir complemento de diligências e ainda
faltarão ao processo a apresentação de alegações finais. Depois do voto
pronto, a ação vai para o revisor, o ministro Celso de Mello.
O processo contra o senador Clésio
Andrade ainda está em fase de oitiva de testemunhas. O processo foi
remetido à PGR, que deverá confirmar os pedidos de inquirição ou indicar
a substituição de nomes. Testemunhas de defesa ainda não foram ouvidas.
Advogado de Cláudio Mourão, Antônio
Velloso Neto nega que os defensores tenham alguma responsabilidade na
lentidão do andamento do processo:
“Os advogados são pessoas sérias, eu
indiquei testemunha e apresentei endereço correto. Se alguém faz alguma
coisa errada, a juíza pode chamar a atenção, e isso não aconteceu. O
direito de arrolar testemunhas é do MP e dos advogados. Se houve atraso,
a inércia foi do Estado. A defesa cumpriu rigorosamente os prazos,
esteve em todas as audiências. Agora, você também não pode correr com o
processo para fazer justiça a qualquer preço”.
Responsável pelo julgamento de crimes
financeiros nas operações de Marcos Valério, a 4ª Vara Criminal de Belo
Horizonte tem o terceiro pior índice de produtividade dentre 60 varas
federais do estado que disponibilizam dados ao Tribunal Regional Federal
da 1ª Região (TRF-1), segundo levantamento obtido pela reportagem. As
informações são do O Globo.
Fonte: emcimadanoticia.com
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